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quinta, 02 junho 2016 09:00
Expert Insight

"Uma maior sobrevivência global com escassa toxicidade será o nosso objetivo"

Na área da pneumologia oncológica, no decurso da ASCO 2016, são aguardados novos dados e a consolidação de resultados relativos à utilização das mais recentes terapêuticas e o respetivo impacto na sobrevivência global.

Em entrevista, o presidente do Grupo de Estudos do Cancro do Pulmão , Dr. Fernando Barata deixa as suas considerações sobre as novas opções terapêuticas e a importância de biomarcadores, de forma a identificar os doentes elegíveis para a imuno-oncologia.

News Farma (NF) | O congresso norte-americano de Oncologia é um momento fulcral do calendário da especialidade. Como tem sido a sua participação dentro da sua área de interesse e estudo? Que expetativas tem para esta ASCO 2016?

Fernando Barata (FB) | Desde há muitos anos que a reunião anual da ASCO é o meu principal evento para atualizar conhecimento e experiencia na área da Pneumologia Oncológica a que me dedico. A ASCO marca o ritmo evolutivo, dado que nesta reunião são divulgados os grandes estudos e avanços na área da Oncologia.  

É com elevada expectativa que vou assistir a esta edição da ASCO. No entanto, como nas edições anteriores, a expectativa não se fixa numa área particular mas no global, com a divulgação dos principais marcos na inovação e saber nesta área. No que diz respeito ao cancro do pulmão são aguardados novos resultados e a consolidação de prévios resultados.

NF | Neste congresso serão apresentados dados de sobrevivência a longo prazo para um conjunto alargado de tumores, incluindo o cancro do pulmão de não-pequenas e de pequenas células. Como antevê os novos resultados? E considera que poderão trazer melhorias substanciais para a sobrevivência destes doentes?

FB | Para o carcinoma de pequenas células não creio que sejam divulgados novos dados de tratamento. Alguns estudos mais recentes ainda não terão dados consolidados. Para o carcinoma de não-pequenas células espera-se dados muito interessantes das várias opções em estudo nomeadamente no domínio das terapêuticas alvo e da imunoterapia.

Claramente podem ter impacto na sobrevivência, nomeadamente através de melhorias na abordagem personalizada, como também na definição da  sequência dessa mesma abordagem e ainda nas terapêuticas após resistência a terapêuticas prévias.

NF | Qual a sua opinião sobre os fármacos mais recentes disponíveis para tratar o cancro do pulmão, nomeadamente os agentes imunoterapêuticos?

FB | Tenho uma opinião muito positiva. Depois dos primeiros dados divulgados com base em ensaios clínicos, estamos a obter na prática clinica, nomeadamente em programas de acesso precoce com o nivolumab, a confirmação de uma maior sobrevivência global com excelente tolerância.

NF | Que impacto pensa que terão no tratamento, nomeadamente na sobrevivência, destes doentes? Mas também na qualidade de vida dos doentes, considerando o perfil de segurança e as toxicidades associadas a este tipo de terapêutica?

FB | Este conjunto de fármacos da área da imuno-oncologia têm demonstrado um aumento significativo importante na sobrevivência do nosso doente quando utilizado após a quimioterapia de primeira linha na doença avançada. Além disso, esta terapêutica tem revelado associar-se a uma boa tolerância.

Estamos perante a um novo grupo de fármacos globalmente bem tolerados, mas com um perfil de toxicidade particular. Aliás, este perfil justifica um profundo saber baseado na literatura e na prática clínica. Pois estamos a administrar fármacos com um modo de atuação diferente a que se associa um perfil de toxicidade específico, embora manuseável.           

NF | Tendo em conta os estudos que têm sido desenvolvidos, encontrar endpoints efetivos para as imunoterapias é um dos maiores desafios desta nova abordagem terapêutica. Que comentário faz a esta necessidade?

FB | O que procuramos para o nosso doente com cancro do pulmão em fase avançada é uma maior sobrevivência com qualidade de vida. Ou seja,  uma maior sobrevivência global com escassa toxicidade será o nosso objetivo.

NF | A imuno-oncologia atualmente funciona apenas para um pequeno grupo de doentes. É importante encontrar biomarcadores que definam que doentes mais beneficiarão destes tratamentos, o que tem sido extremamente difícil. Pensa que esta dificuldade será ultrapassada a curto prazo?

FB | Os biomarcadores são extraordinariamente importantes. Atualmente, vamos reconhecendo que a imunoterapia não é para todos os doentes. Precisamos identificar aqueles que mais beneficiarão desta terapêutica. Para tal marcadores já referenciados e novos marcadores a identificar serão imprescindíveis para definir o doente com cancro do pulmão elegível para imuno-oncologia. Penso que esta identificação ocorrerá nos próximos tempos.

NF | Em Portugal, o cancro do pulmão é doença oncológica com uma das mais altas taxas de mortalidade, ocupando o 4.º lugar em incidência. Na qualidade de presidente do Grupo de Estudos do Cancro de Pulmão, como avalia o surgimento de novas perspetivas no tratamento de uma patologia é ainda de mau prognóstico.

FB | Importantíssimo. As novas terapêuticas nomeadamente as terapêuticas para alvos moleculares específicos (EGFR, ALK, ROS1 e outros) e a imunoterapia serão uma mais-valia no tratamento do nosso doente. Precisamos definir quais os doentes que beneficiam e a sequência das opções terapêuticas. Não podemos esquecer que, para muitos, uma correta quimioterapia associada ou não a terapêuticas clássicas, ou novas terapêuticas poderá ser a real opção eficaz e igualmente bem tolerada.

NF | Os ganhos obtidos na área do cancro do pulmão estão também relacionados com a capacidade do diagnóstico mais precoce, bem com de melhores abordagens ao nível das especialidade envolvidas no tratamento oncológico, nomeadamente cirurgia, radioncologia, farmacologia. Como avalia estes ganhos e que terreno estão a alcançar no que diz respeito à sobrevida?

FB | Toda as áreas terapêuticas da Pneumologia Oncológica tem contribuído para os resultados finais obtidos hoje no nosso doente com cancro do pulmão. Todos os dias assistimos a novos resultados promissores na área da cirurgia, radioncologia e da farmacologia oncológica. Em conjunto estamos a conseguir que mais doentes, independente do estadio, vivam mais e melhor.

Não devemos deixar de nos preocupar com os fatores de risco para o cancro do pulmão, no qual o tabaco ocupa o lugar principal. Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que se comece a fumar ou tudo fazer para ajudar quem fuma deixar o tabaco, já que este o caminho mais eficaz para uma redução da incidência de cancro do pulmão nas próximas décadas.

Estamos a trabalhar e aguardamos resultados de mais estudos de rastreio no cancro do pulmão. Por aqui passará outra abordagem da doença oncológica responsável por maior número de anos de vida perdidos.

NF | Como pensa que podem ser otimizadas as estratégias de prevenção primária desta neoplasia?  Sabendo que, como foi divulgado recentemente, em nove anos, o consumo de tabaco diminuiu muito ligeiramente, menos de um ponto percentual, apesar da legislação cada vez mais restritiva.

FB | Se os resultados ficaram aquém das nossas expectativas apenas devemos manter e diversificar toda a estratégia de evicção e cessação tabágica. Temos que continuar todos unidos - público e privado, o individuo e o coletivo - para que o numero de novos casos de cancro do pulmão inicie uma tendência decrescente.

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