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segunda, 30 maio 2016 18:29
Atualidade

“A investigação faz sentido se for colocada ao serviço dos doentes”

Nas vésperas da reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), a presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia (SPO)  partilha, em entrevista, os seus pontos de vista sobre as matérias de relevo no atual momento da história da especialidade e que vão estar no “spotlight” do congresso norte-americano.

Se do ponto de vista terapêutico, é incontornável o impacto da imuno-oncologia, assim como as evoluções ao nível da terapia celular, também os temas relacionados com a Oncopolítica ganham um maior terreno. É certo que o maior controle da doença coloca novos desafios às estruturas económicas e sociais. Igualmente caro à SPO é o tema da acessibilidade equitativa a cuidados de saúde de qualidade. Uma preocupação transversal à comunidade oncológica internacional. Estes e outros assuntos serão revistos no Simpósio Nacional SPO 2016, que terá como mote “Reflexões para o Futuro”, assim avança a Dr.ª Gabriela Sousa.

News Farma | Este é um dos maiores congressos mundiais de Oncologia. Como avalia a evolução da investigação que tem sido apresentada nesta reunião norte-americana dentro das suas áreas de interesse e de acordo com a sua participação?

Dr.ª Gabriela Sousa (GB) | De facto, este é o maior congresso mundial de Oncologia. A ASCO marca o ano em termos da apresentação dos resultados dos ensaios clínicos mais relevantes. Conta com mais de 30 000 congressistas de todo o mundo e é onde os investigadores e a comunidade científica dedicada à Oncologia querem estar, no sentido de fazer evoluir o seu conhecimento e prática clínica de acordo com o que de melhor se está a fazer.

Ao longo dos anos, temos verificado uma aproximação cada vez maior dos investigadores ao mundo real. A investigação faz sentido se for colocada ao serviço dos doentes e se estes sentirem que a “inovação” lhes proporciona uma vida com mais qualidade.

A minha participação tem sido algo irregular. Atendendo ao esforço pessoal que exige, não tenho tido uma participação anual. Contudo, e dado que hoje são várias as ferramentas digitais ao nosso dispor (ASCO virtual, por exemplo), é fácil todos nós acedermos aos resultados mais relevantes que lá são divulgados, para que possamos aplicá-los na nossa prática diária.   

News Farma | Que expetativas tem para esta ASCO 2016? Em relação a que resultados/sessões está mais expetante, e porquê?

GB | Dada a evolução do conhecimento biológico que tem vindo a acontecer na Oncologia, as nossas expetativas estão centradas no desenvolvimento da imuno-oncologia. Esta é uma área que tem tido enormes desenvolvimentos nos últimos anos, com a descoberta e desenvolvimento de fármacos dirigidos aos inibidores de chekpoint imunológicos, e a grande expetativa está relacionada com o conhecimento cada vez maior de como gerir a longo prazo os doentes que estão atualmente a ser tratados.

A imuno-oncologia está a ser também “experimentada” no tratamento de neoplasias que até ao momento contavam com reduzidas opções de tratamento, nomeadamente tumores da bexiga, carcinoma da cabeça e pescoço. Será para nós importante conhecer os desenvolvimentos terapêuticos e a aplicabilidade destes novos fármacos nestes contextos específicos. Também a terapia celular está a conhecer uma nova era, com as células T reguladoras (T reg) e as células CAR T.

Mas não será só de desenvolvimento científico que a ASCO será feita. As sessões de oncopolítica ou de politica económica e social também são habitualmente de grande importância. A comunidade científica discute a forma como a “inovação” e os custos que comporta podem ser acomodadas pelos vários países de forma sustentada. E é particularmente interessante verificar como estes problemas são comuns à maior parte dos países, onde os serviços de saúde são maioritariamente públicos e de financiamento estatal.

Conhecer e desenvolver a imuno-oncologia

News Farma | As modalidades terapêuticas emergentes, como a Imuno-Oncologia, continuam a dar cartas em termos de melhoria na sobrevivência a longo prazo em algumas neoplasias em fases avançadas, como por exemplo mama, pulmão e melanoma. Do seu ponto de vista, qual vai ser a magnitude real desse impacto na sobrevivência dos doentes?

GB | A imuno-oncologia tem especificidades muito próprias. Quando falamos de doença avançada, o objetivo das várias modalidades de tratamento tem sido proporcionar melhor qualidade de vida e, se possível, aumentar o tempo de vida, mas curiosamente até à data não se conseguiam benefícios significativos na “dita” curva de sobrevivência dos ensaios clínicos. Esta mantinha mais ou menos o mesmo traçado, apenas transferido um pouco mais para a frente, e assim melhorando a sobrevivência mediana.

Com a imuno-oncologia, tem-se vindo a assistir a respostas tumorais mais longas e um maior número de doentes com a sua doença controlada durante mais tempo, o que estatisticamente se traduz numa subida na parte final da curva de sobrevivência. Se para o doente este benefício representa a esperança de uma vida, para os médicos representa uma possibilidade única de controlo da doença. Para o sistema de saúde, por outro lado, representa uma enorme preocupação para conseguir suportar e acomodar economicamente um número cada vez maior de doentes sob este tipo de tratamento.

De facto, dado que o controlo da doença deixa de ter por base a biologia do tumor e passa a centrar-se no hospedeiro, esta modalidade de tratamento ganha preponderância, na medida em que manipulando o sistema imunitário consegue-se que o hospedeiro/doente auto-controle o desenvolvimento do tumor, e daí o impacto que se tem verificado em termos de sobrevivência.

Também está demonstrado que, à medida que aumenta o conhecimento no manuseamento de determinada tecnologia, a sua eficácia aumenta, e este será um dos desafios do futuro: conhecer e desenvolver a imuno-oncologia.

News Farma | Nesta reunião da ASCO também será posta em cima da mesa a questão dos biossimilares. Qual é a sua posição sobre a sua utilização no contexto do tratamento oncológico?

GB | A introdução dos biossimilares na prática clínica corrente gerará muita poupança ao serviço nacional de saúde (SNS) e será inevitável, até para que possa ser acomodada a “inovação” que vai surgindo. Por outro lado, à medida que mais se vai conhecendo sobre os fármacos ditos “biológicos”, mais chegamos à conclusão que o seu processo de manufaturação é tão complexo que estes também serão, inevitavelmente, biossimilares de si próprios.

Contudo, a comunidade científica revela alguma preocupação na forma como o processo de introdução dos biossimilares poderá ocorrer. São vários os desafios que se nos colocam, e sobre esta questão a SPO prepara-se para dar a conhecer um position paper sobre o assunto, dado que estará iminente a introdução dos primeiros biossimilares para o tratamento oncológico.

A questão mais importante prende-se com a necessidade de se fazer a rastreabilidade do uso destes fármacos, de modo a assegurar a sua eficácia e segurança, sobretudo em situações em que se prevê uma longa utilização desses tratamentos. A questão da imunogenicidade é muito importante, porque pode variar entre doentes. Todos devemos estar preparados para garantir que a introdução dos biossimilares ao serviço da oncologia seja segura e avaliável.

News Farma | O peso internacional da ASCO é significativo está expresso no conjunto de sessões internacionais, em parceria nomeadamente com a European Cancer Organisation. Na sua opinião, o que aproxima e o que distingue a investigação e a abordagem clínica realizadas nos Estados Unidos em comparação com a Europa?

GB | Ao longo dos anos, os EUA têm revelado uma maior capacidade de desenvolvimento na investigação. As principais multinacionais têm os seus centros de investigação sediados nos Estados Unidos. Contudo, hoje em dia ninguém consegue fazer investigação sozinho e estamos a assistir a uma mudança na forma como a investigação é encarada, passando para um modelo colaborativo, multicêntrico, multinacional, em “networking”. Penso que os EUA têm sabido aproveitar melhor o investimento na investigação e a forma como estão organizados também tem contribuído para o seu sucesso.

Parece-me, contudo, muito positivo que EUA e Europa aproximem as suas estruturas de investigação, no sentido de criar sinergias e melhorar o que já se faz em cada continente.  

SPO empenhada no garante da acessibilidade os cuidados de qualidade

News Farma | Também na ASCO, a questão da acessibilidade do tratamento está também na ordem do dia, tendo em conta não só o aumento da prevalência das doenças oncológicas, mas o custo das novas terapêuticas de ponta. Assumindo a Sociedade Portuguesa de Oncologia, que preside, o papel de “provedora” dos doentes, o que urge modificar na realidade portuguesa para garantir a equidade no acesso.

GB | A prioridade da SPO, enquanto sociedade científica, é unir os profissionais para elevar a qualidade do trabalho em Oncologia em Portugal. Foi por essa razão que no ano passado quisemos perceber quais eram as principais preocupações destes profissionais e constatamos que cerca de 90% dos inquiridos discordavam que “no nosso país o tratamento para os doentes que vivem com cancro difere de hospital para hospital”. As assimetrias regionais uma questão, são só no que diz respeito ao tratamento, mas também ao nível do acesso ao rastreio, diagnóstico e cuidados paliativos.

Nas doenças oncológicas, quando falamos em inovação tecnológica referimo-nos às tecnologias que asseguram a melhoria da qualidade de vida do doente, o aumento do tempo de vida ou as duas em simultâneo. Muitas vezes, questiona-se se acrescentar dois ou três meses de vida valerá o suporte daquele custo. Não nos podemos separar das estatísticas, mas para o doente muitas vezes é um tratamento que faz a diferença porque lhe traz esperança.

Portugal está entre os países europeus que mais tempo demora na avaliação da comparticipação dos medicamentos inovadores pelo SNS. Enquanto se espera pela comparticipação, há a possibilidade de, mediante uma Autorização de Uso Excecional (AUE), acedermos à referida tecnologia ou medicamento sempre que está em causa a vida do doente, ou a possibilidade de este sofrer graves complicações decorrentes da evolução da sua doença, o que é constante em situações de doença avançada ou metastizada. E este recurso que deveria ser excecional, neste contexto é uma constante …

Contudo, verifica-se atualmente uma enorme assimetria na acessibilidade, com enorme ineficiência porque se paga o custo de tabela dos medicamentos, geralmente muito superior ao preço que é negociado para a comparticipação entre o INFARMED/SNS com a Indústria Farmacêutica. Nesta fase de avaliação prévia do medicamento, em particular, todos perdemos, mas sobretudo perde o doente que muitas vezes já não recebe o medicamento em tempo útil. E perde o SNS, porque paga muito mais do que devia se a negociação do preço final fosse célere. Em Oncologia o tempo é fundamental, e na SPO estamos determinados em fazer com que a acessibilidade aos cuidados de qualidade deixe de ser uma questão.

O futuro da Oncologia em debate no Simpósio Nacional SPO 2016

News Farma | Os avanços na ciência e na medicina, nomeadamente na área oncológica são impressionantes, e é certo que na área da investigação há muito em aberto. Como perspetiva essa evolução?

GB | Encaro com otimismo e expetativa o futuro desta especialidade, que coloca a todos grandes desafios. No entanto, devemos começar por refletir o presente para podermos perspetivar e preparar o que poderá vir a ser a nossa prática clínica no futuro. Foi com esta linha de pensamento que a SPO decidiu organizar a segunda edição do Simpósio Nacional SPO, este ano exatamente sob o mote “Reflexões para Futuro”.

Na verdade, o que poderá ter implicações futuras na nossa prática clínica já está, possivelmente, a acontecer hoje. Os avanços que se verificam na ciência translacional e noutras áreas da Medicina entrecruzam-se com a prevenção, diagnóstico e tratamento oncológico.

Desta forma, para esta nossa reunião, que irá acontecer de 17 a 19 de novembro, na Figueira da Foz, preparámos um programa no qual quisemos dar espaço às várias vertentes da inovação ao melhor serviço dos doentes: na medicina de precisão, mas também nas novas técnicas de imagem, na inovação na cirurgia, na radioterapia e na terapêutica sistémica. Parece-nos fundamental abordar os avanços tecnológicos na terapêutica dirigida à doença oligometastática, mas também ao nível dos procedimentos e das organizações, o trabalho em equipa e a integração de profissionais de várias áreas. Estas questões vão impactar na forma como iremos prestar os cuidados ao nosso doente no futuro.

E como, para falarmos de futuro em Oncologia, temos de o fazer em conjunto com todos os profissionais envolvidos, neste Simpósio Nacional SPO 2016 contamos ainda com um programa dirigido aos profissionais de enfermagem, organizado em parceria com Associação de Enfermagem Oncológica Portuguesa (AEOP).

Temos ainda um dia especial, dedicado às novas gerações de oncologistas. Será o dia 17 de novembro, com a realização do 1.º Encontro de Internos e Jovens Especialistas.

A Oncologia está hoje a viver uma fase de grandes mudanças e viragem de paradigmas e nós, em Portugal, temos de acompanhar esta evolução. A SPO, enquanto sociedade científica, quer assumir um papel ativo a esse nível e envolver todos os profissionais naquilo que será o futuro do tratamento desta doença que tantos desafios nos coloca.

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